Introdução

A pergunta que passa na cabeça de todos nesse momento, incluindo a minha, é: Por quê? Por que deixar de lado drum machines, synths ou CDJs para tecer algumas linhas as quais talvez não interessem a ninguém? Ego Trip? Talvez, mas nem de longe é o motivo primordial.

Desde muito novo eu sempre quis ser muitas coisas que obviamente foram mudando ao longo do tempo. Se o meu banco de memória não pifou permanentemente, na primeira vez em que fui questionado sobre o que desejava ser ao me tornar adulto, a Arqueologia deve ter sido a resposta. Uma ideia boba diretamente influenciada pelas aventuras de Indiana Jones contra nazistas em desertos africanos, mas confesso que não posso mensurar até que ponto isso foi determinante para estudar e me formar em História. Poucos anos depois, eu me imaginava como diretor cinematográfico (não ator, diretor), provavelmente deslumbrado com os contos narrados nas películas e toda a pompa típica de Hollywood. Fiz até vestibular para faculdade de Cinema na UFF, porém acabei ingressando mesmo em outra Federal aqui no Rio. Mas de todos esses desejos o que realmente colou foi a minha relação com a música. Primeiramente como DJ e um pouco depois atuando em bandas (tenho problemas com a palavra músico, sei lá… acho cafona), esse sempre foi e ainda é o motor que me move.

Quando assistimos ao filme sobre as Runaways (aquele com a menina do Crepúsculo), Suzana falou algo que até hoje ecoa:

“Existem pessoas que possuem um bichinho dentro delas, um combustível o qual é a força para que elas nunca parem de correr atrás dos seus desejos.”

Mesmo referindo-se à Joan Jett, eu gosto de acreditar que vale para mim também. Gastar tempo e dinheiro em música alternativa no Brasil é algo para poucos porque o retorno financeiro, quando existe, geralmente é muito pequeno e a luta por algum reconhecimento sempre árdua. Já ouvi inúmeras vezes as afirmações de que se morasse nos Estados Unidos ou tivesse nascido europeu meu trabalho teria maior repercussão. Esse tipo de pensamento, mesmo reconfortante, tem pouca validade prática e sinceramente, fama ou glória não é o que me motiva hoje aos 40 anos de idade. Prefiro prender-me a ideia do inevitável, aquilo o qual proíbe acomodar-se e desistir, impulsionando a mim mesmo e outros nessa onda da música e arte voltada para pessoas que fogem do comum, dos personagens que caçam o diferente e querem formar uma comunidade onde as referências são outras: menos ditadas pelo marketing e mais por algo maior e significativo. Ou tudo isso é muita caôzada (desculpem pelo carioquês) e o motivo real seja apenas a diversão… Well, também é uma excelente justificativa.

Voltando a pergunta do início dessa introdução, por quê? Usando a linguagem mais acadêmica à qual me habituei quando escrevi minha monografia de conclusão de curso (sobre uma dupla de cantoras adolescentes neonazistas), acho válido destacar alguns pontos importantes para essa tomada de decisão:

O livro “Mordidas Sonoras” do Alex Kapranos (Franz Ferdinand) sem dúvida é a fagulha. Comprei o livro quando de seu lançamento (2007?), mas como muitas outras obras eu vim desfrutá-la apenas agora. O cara narra suas aventuras com a gastronomia, seja na infância, seja nas turnês ou mesmo quando trabalhou em restaurantes antes da fama global. A escolha de separar os capítulos em capsulas de memória, sem uma ordem cronológica ou mesmo conexão com os capítulos anteriores, é muito feliz. Confesso a inveja e devo roubar esse formato.

Um segundo motivo importante é o incomodo que sinto com a escrita digital. Explico: na condição de pessoa mais experimentada (sinônimo de velho) passei por fases diversas: escrita a mão, em máquina de escrever (acreditem), no computador e agora com smartphones. Sei lá, por causa das redes sociais, nunca deve ter se escrito ou lido tanto quanto hoje, mas não acredito que isso se traduza em qualidade. As palavras na web atualmente são muito semelhantes ao discurso oral, enorme comprometimento com a mensagem, mas pouco caso com a forma ou fluidez. Vejo isso em outros e em mim, uma maldição herdada por todos que precisam digitar em minúsculas teclas de pequenas telas pretas. Encaro esse trabalho como um exercício, uma quebra desse obscuro paradigma.

Por fim, eu sempre fui atraído pelo texto. Imaginei-me escritor algumas vezes e cheguei a lançar online um conto escrito quando passei férias em Juiz de Fora. Mesmo tendo feedback positivo de alguns internautas à época, ainda me sinto inseguro em nadar nessas águas. Conforme conversei com Claudio Borges recentemente: alguns são verdadeiros maestros das letras, outros possuem uma enorme máquina onde é possível valer-se de revisores ou mesmo ghost writers para difundir sua imaginação ou observação. Certamente não conto com a segunda opção e tenho dúvidas quanto a pertencer à primeira. Entretanto, fui inseguro em muitas coisas na minha vida por muito tempo e hoje acredito que não devemos nos prender nessas falsas barreiras. Então, vou arrumar um tempo entre festas, gravações, casamento, trabalho e shows para relatar algumas experiências ou divagações ligadas a música.

É isso.

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