Skates & Beats

Não tenho certeza, talvez meu irmão não quisesse ter isso de sua vida exposto, mas ele partiu com a família na última segunda-feira para o exterior. Claro que é fácil compreender os motivos: país desgovernado e entregue à violência das redes criminosas e do Estado, fora a total falta de gestão e intelecto por parte dos nossos eleitos no executivo e legislativo. Todo brasileiro em algum momento da sua vida deve ter deslumbrado a possibilidade de chutar o balde e partir para novas e distantes praias.

A despedida é difícil por ser uma ruptura, o término de algo que fica para trás enquanto você olha para novos horizontes, novas descobertas. Entrar em contato com o diferente, o alienígena é transformador porque entendemos que os pensamentos e decisões não precisam ser aqueles aos quais nos acostumamos por toda uma vida, ditados por costumes regionais ou familiares.

Não faz muito tempo, nossos gostos diferiam muito, contudo um desses “contrastes” fez que nos aproximássemos. Em nossa adolescência, nós tínhamos poucas afinidades: eu sempre fui mais introspectivo dependendo do ambiente que me encontrava (talvez até tímido) e muito ligado a ideias, sons, um cara que talvez fique mais confortável em ambientes fechados. Por sua vez, ele era o oposto, fortemente conectado à ação, mais expansivo e apreciador de espaços ao ar livre. Como o blog é voltado para música, vale ressaltar que nesse campo a distância também era grande.

Boa parte de sua juventude, ou toda ela, o Marcelo foi skatista.  As sonoridades que gravitavam esse universo, ao menos no Rio de Janeiro, causavam-me pavor. Aquele hardcore pop nacional soava-me como ofensa, mas faziam a cabeça de muita gente, principalmente entre os adeptos das pranchas com rodinhas. Nossa conexão nesse momento se baseava em alguns CDs dados de presente por imaginar que seriam mais úteis com ele do que na minha estante (Planet Hemp, Raimundos, Public Enemy).

Dentro da minha família havia uma tradição: sendo nosso avô português, ele levava os netos a Portugal para conhecer suas origens, descobrirmos de onde veio e como vivia esse ramo da família. Eu fui ao país em 1988 (com 10 anos de idade) e meu irmão foi algumas vezes depois disso. Em uma dessas viagens, ele já estava apto a dirigir, conheceu muitos dos points frequentados pelos skatistas lusitanos.

No momento do seu retorno era visível que algo havia mudado, porque trazia consigo uma nova postura. Os portugueses com quem conviveu estavam mais antenados com a modernidade, se desligando dos velhos clichês Skate / Califórnia / Hardcore que talvez ainda estejamos presos por essas bandas. Desde então, tornou-se normal trocar ideias sobre Chemical Brothers, Joy Division ou qualquer outros que habitavam minha coleção de CDs.

Paixões unem pessoas. Literatura, cinema, cuidado com os animais, política ou fé tem o poder de aglutinar um grupo, a força de criar uma ligação onde os indivíduos tem prazer em andar juntas. Isso já aconteceu diversas vezes na minha vida, podem ter certeza.

Desejo sorte a eles e espero que possamos nos reunir em breve.

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