Prussian Blue

Você às vezes tem a impressão de ter entrado numa espiral? O mundo parece estar vivendo um ciclo estranho de notícias que seriam consideradas surreais há poucos anos atrás? O Facebook hoje nada mais é do que uma enxurrada de catástrofes, ora proporcionado por nossos dirigentes, mas também caracterizado por desastres naturais, descaso humano entre tantos outros.

Ontem foi particularmente perturbador: além das desanimadoras e corriqueiras manchetes políticas, presenciamos atônitos o incêndio da Capela de Notre Dame. Um amigo, numa constante indignação mantida desde o resultado de nossas últimas eleições, exclamou estarmos realmente vivendo a Kali Yuga. Para aqueles que desconhecem a mitologia indiana, segue essa breve descrição retirada da página da Wikipédia:

“Escrituras como o Mahabharata e o Bhagavata Purana apresentam Kali Yuga como uma era de crescente degradação humana, cultural, social, ambiental e espiritual, sendo, simbolicamente, referida como Idade das Trevas porque, nela, as pessoas estão tão longe quanto possível de Deus.”

Os adeptos do Hinduísmo diferem sobre o início da mesma, alguns acreditando que já está vigente a milhares de anos enquanto outros creem que estamos prestes a adentrá-la. Não sou um cara religioso e muito menos supersticioso, mas a degradação de nossa sociedade parece algo tangível, inevitável.

É óbvio que nossa percepção do mundo hoje é ditada pela tecnologia. Mark Zuckerberg tem passado maus bocados com o Senado Americano e tornou-se notório que além dos nossos dados, o modo como enxergamos a realidade foi comprometido. Quem são as pessoas que arquitetam o nosso futuro através das redes sociais? Qual o objetivo de nos moldar através dessa teia de Fake News?

Preciso deixar algo bem claro. A ideia do blog não é virar uma página conspiratória e muito menos paranoica, mas algumas questões que hoje circulam no discurso de pessoas importantes me são caras. Então, dessa forma, não consigo me calar diante essa situação.

Em 2009, eu finalmente consegui me formar em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. O meu curso já se prolongava há bastante tempo, tendo me transformado em um daqueles alunos jurássicos que são parte da mobília da Instituição. Um paralelo interessante feito por mim à época era perceber que muitos dos meus amigos já haviam partido, mas eu ainda estava ali, como um homem idoso que se lembra dos seus companheiros falecidos. Cheguei a receber uma notificação de jubilamento, mas por sorte estava com todos os meus créditos concluídos e a monografia pronta, feliz em receber meu canudo muito em breve.

IFCS: minha casa por muitos anos

Certamente um dos motivos da minha demora em concluir o curso foi a indecisão sobre o tema da minha dissertação. Por muitos anos me vi enquanto um estudante na área da antiguidade porque adorava os estudos sobre a Grécia e já possuía alguns professores interessados em orientar-me. Porém, nem sempre nossos planos se realizam e por motivos diversos, apesar de ainda ser apaixonado pelo tema, não desejava mais falar sobre a vida de pessoas que já estavam mortas muito antes do nascimento de Cristo.

Totalmente perdido, cheguei a cursar a cadeira relativa à criação da monografia sem ter nenhum plano, incerto sobre o que me debruçar. Sugeri a professora um tema que, aos meus olhos, parecia inédito: Cinema Expressionista e Nazismo. Para minha surpresa, a mesma alertou-me que todo período alguém queria elaborar sobre essa relação, tendo dezenas de artigos sobre o assunto.

Naquele momento em que você não sabe mais para onde correr, surge uma luz no fim do túnel (mais clichê, impossível). Li sobre uma entrevista dada pelo conjunto “Prussian Blue”, um duo adolescente norte-americano, que gerava ondas de indignação por cantar odes a generais nazistas. Suas letras racistas e revisionistas tomavam de assalto os telejornais estadunidenses. Estava decidido.

Ricardo Castro foi o meu orientador nessa desafiante empreitada e uma excelente ajuda, um farol que mostrava o caminho certo a seguir. Ao contrário da grande maioria dos alunos, eu trabalhava com uma narrativa que não havia sido debatida à exaustão. Obviamente eu utilizei a literatura que trata sobre assuntos correlacionados ao meu objeto (racismo, neonazismo, revisionismo), mas como o grupo era a história em movimento, acontecendo diante dos olhos de todos, tive que criar muita coisa do zero.

No meu curso ginasial, não era incomum deparar-me com a dualidade “Fim do Socialismo” versus “Retorno do Fascismo”. Lembro-me de uma charge onde Nosferatu saía de um caixão entalhado com a palavra “Nazismo”, enquanto a foice e o martelo partiam por uma porta. Esse fantasma assombra desde a segunda metade dos anos 80, mas era difícil prever (ou mesmo imaginar) quando ele se materializaria. Em 2009, eu vi através do Prussian Blue como as coisas estavam começando a se desenrolar.

Pesquisar é nadar em correntezas muitas vezes desconhecidas. Qual o motivo do Prussian Blue ter virado notícia? Não existia música neonazista antes disso? É claro que sim, mas o diferencial era a apresentação. Ao contrário das dezenas (ou mesmo centenas) de grupos de rock raivosos formados por skinheads supremacistas (vale ressaltar que os skinheads em sua maioria não o são) com letras e indumentárias que louvavam Hitler e asseclas, as meninas do PB usavam roupas folclóricas alemãs e entoavam canções pop, provavelmente pensadas para um público mais jovem. A meu ver, os neonazistas americanos mudavam o foco e agora corriam atrás das criancinhas, deixando de lado um pouco os desajustados habitantes da puberdade.

Através de seus álbuns e suas constantes aparições em jornais, as jovens moças do Prussian Blue tentavam reescrever a História: o chamado multiculturalismo era o vilão, condenando a “raça branca” ao desparecimento num mar de miscigenação; ou mesmo através da nova postura da mulher, com posses materiais, uma carreira e sem tempo para ter filhos. Além disso, a relativização da culpa dos nazistas na Segunda Guerra Mundial formava o caldo dessa massa indigesta pensada e vendida pelos supremacistas por trás da carreira das cantoras.

Vale ressaltar que o ocorrido deu-se há dez anos. O grande público e a mídia rechaçou as garotas e seus associados que voltaram a ser apenas um incomodo ruído tolerado em nome da liberdade de expressão. Infelizmente, hoje sou forçado a pensar que o Prussian Blue foi o primeiro passo de uma campanha, um projeto de tornar os ideais dos supremacistas brancos algo mais palatável ao grande público. A música é um dos grandes, talvez o maior, fatores transformadores na vida de um jovem e atraí-los para essa arapuca valendo-se dela sempre foi o plano final.

Passados dez anos, nos encontramos em um mundo onde a Alt Right é uma força expressiva, fora um presidente o qual afirma que devemos perdoar os nazistas pelos seus feitos. Um tempo quando se diz aos quatro ventos que a esquerda é responsável pelo Nazismo e uma suposta luta contra o “marxismo cultural” prende professores que tentam apenas lecionar aos jovens. Repetindo o que foi dito no início: você sente que caiu numa espiral? Sente-se dragado para um lugar escuro sem perspectiva de retorno? A confusão mental e a ignorância assassinaram o bom-senso.

O conhecimento e a arte libertam. O primeiro te prepara para as intempéries, podendo passar o que foi aprendido a outros com o objetivo que eles também se soltem de suas correntes imaginárias. A segunda inspira, nos motivando a seguir pelo caminho correto e apresentando outras formas de olhar, diferentes maneiras de perceber a si mesmo e o mundo. Para cada pessoa preconceituosa oriunda dessa onda obscurantista, pode ter certeza que em oposição também aparecem meninos e meninas munidos de guitarras, pedais de distorção e disposição de bater de frente com o retrocesso, amparados pelo mais sujo punk rock.

Dois pontos merecem destaque: minha monografia chama-se “Prussian Blue: um estudo sobre um conjunto pop adolescente norte-americano neonazista (2001-2007)” e já esteve disponível online. Vou tentar organizar os arquivos e publicá-lo novamente, talvez um e-book ou algo do tipo. Por último, as meninas do Prussian Blue abandonaram a vida artística e também as ideias idiotas que permeavam suas letras. Na última vez que li sobre, trabalhavam como camareiras em um hotel e se diziam muito felizes, principalmente após da descoberta da maconha.

Ponto para a maconha.

2 comentários em “Prussian Blue

  1. Apesar de já ter te ouvido falar do Prussian Blue, nunca tinha tido curiosidade em saber quem de fato eram essas meninas. Fiquei pasma hoje ao buscar informações sobre o duo e descobrir quão jovens elas são .

    Curtir

    1. Pois é. Fiz uma busca rápida sobre elas antes de escrever aqui, mas a matéria que achei datava de 2011. Nela, as duas afirmavam ter abandonado de vez os ideais supremacistas e estavam fazendo campanha à favor dos poderes curativos da Marijuana.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s