Entrevista Decadance

Concedi essa entrevista ao pessoal da DecaDance e acho que vale como post do blog. Segue na íntegra esse nosso bate papo:

É com muito orgulho que o //Decadance Festival// recebe um projeto CUBÜS. Sua música transita entre o experimental, minimal wave e synth pop… Diego de Oliveira (“cérebro do projeto”.) é um entusiasta da música alternativa; é idealizador de alguns projetos na cena alternativa do Rio de Janeiro e mantém também o selo Paranoia Musique cujo cast nos agrada bastante!

Segue uma breve entrevista que fizemos com ele, onde fala um pouco sobre tudo isso.

1 – O CUBUS COMEMORA ESTE ANO 15 ANOS DO LANÇAMENTO DO SEU PRIMEIRO EP DE DEMOS. CONTE UM POUCO DO COMEÇO DO PROJETO E QUAL A RELAÇÃO DA BANDA COM A CHAMADA NOVA “CENA POST PUNK” E “MINIMAL SYNTH”.

Sei que vai soar clichê, mas a banda surgiu meio que por acaso. Em 2003, eu já discotecava há alguns anos nas festas góticas do Rio quando conheci o João Pedro (vocalista original do Cubüs) por intermédio de um grande amigo nosso. Aprendi a tocar teclado na segunda metade dos anos 90 e desejava formar uma banda eletrônica calcada nos meus heróis da década anterior, música pop com sintetizadores e drum machines, mas sem sucesso até então. Quando nos conhecemos, sentimos uma conexão imediata e em pouco tempo já planejávamos nossos primeiros passos.

Nosso gosto em comum por música alternativa / underground somados aos autores que líamos foram o ponto de largada. O primeiro EP do Cubüs chamado “Anti-Pop Art” (que hoje está fora de catálogo) já apontava para essa coisa meio dark, meio underground que desenvolvi ao longo dos anos. Mas ao contrário de muitos dos nossos contemporâneos, a regra era não nos prender a estilo A ou B, mas agregar o que achássemos interessante. Consumíamos bastante synthpop, industrial, trip hop, electro, rock alternativo e música experimental naquele período que casaram com os “poemas malditos” escritos pelo João.

Sempre fomos adeptos do DIY (até por falta de opção) e aprendemos na marra como compor e gravar. O início dos anos 2000 foi marcado pelas primeiras bandas (sem contrato com gravadoras) divulgando suas músicas em sites como Trama Virtual ou Fiber Online. Então, a divulgação e gravação digitais ainda eram uma novidade e descobrimos na prática como nos virar porque não existiam regras ou manuais para isso.

Quando lançamos nossas primeiras músicas, recebemos boas críticas de alguns sites e fomos enquadrados na época numa “nova cena synth” carioca (que não sei se de fato existiu). Após nossa apresentação em 2005 com a “Orquestra Ektoplasma” (projeto do Servio Tulio do Saara Saara) fomos abordados por um repórter do Jornal do Brasil sobre uma possível pauta e, quase ao mesmo tempo, fomos convidados para participar da coletânea “Amp MTV Electrobreaks” que seria lançada no mesmo ano. Por motivos diversos, ambas as coisas não aconteceram e isso causou uma frustração para nós e, dessa forma, o João acabou saindo para se dedicar a carreira de escritor. Desde então, eu sou o comandante e único membro fixo.

Nesses quinze anos de existência talvez seja a primeira vez que me encaro como parte de uma cena. Eu ainda acredito que as composições do Cubüs giram em torno do ideal de não se prender a estilos específicos ou copiar sonoridades, mas percebo que mais e mais jovens se voltam para as mesmas referências que eu tinha em 2004, deixando de lado laptops e compondo com synths, guitarras e baterias eletrônicas. Conheci muita gente legal nesses últimos anos e encaro a cena como um grupo de pessoas criativas e apaixonadas tentando se ajudar, disseminando uma arte pouco convencional, bem menos massificada.

2 – DE ONDE PARTIU A IDEIA DE MONTAR O SELO PARANOIA MUSIQUE?

O primeiro álbum do Cubüs saiu em 2016 (Caridade & Sadismo) e eu parti para uma tática agressiva de divulgação entrando em contato com gravadoras e mídia alternativa. Por quatro anos eu fui integrante na banda “As Amigas de Plástico” (post-punk e psicodélico aqui do Rio) e aprendi com o Raf Guimarães que “vender” a música é tão importante quanto criá-la.

Mesmo tendo participado de coletâneas maravilhosas organizadas pelo “The Blog That Celebrates Itself” ou “Deepland Records”, eu via como era difícil abordar um selo para oferecer sua música. Existe uma barreira natural com os gringos quando se canta em português e o cenário nacional é muito mais difícil, os recursos são mais parcos e os canais de divulgação underground mais escassos.

Além disso, eu percebia como poucas festas no Rio abriam espaço para as bandas se apresentarem. Entre 2016 e 2017 eu devo ter tocado em todas as festas locais que se propunham a receber bandas e senti a necessidade de fazer algo para mudar isso, tentar crescer esse cenário.

Dessa forma, a Paranoia Musique surgiu atuando em duas frontes: festa sempre com DJs e Bandas e um selo para ajudar na divulgação dos sons legais que eu descubro online. Até o momento, já foram 14 lançamentos (entre coletâneas e álbuns) e diversas festas com shows de uma galera muito bacana como 1983, Gangue Morcego, Poëtka, The Knutz, Cubüs e também Arte no Escuro e Ocaso em parceria com o super bróder Armando Louder do Imusy.

Para quem gosta de spoilers, além do evento com Masquerade, Virgin in Veil e Poetisa Dissecada no final de junho no Rio, a Paranoia Musique também lança no final de maio o quinto volume da sua já tradicional coletânea com nomes do Brasil e exterior. Talvez ainda cedo para falar, mas podem se preparar para algumas novidades com a Gangue Morcego, Quântico Romance e Cubüs.

3 – COMO O PROJETO VÊ O RECENTE “APOGEU” DA MÚSICA ELETRÔNICA/OBSCURA ATUAL? VOCÊ ACHA QUE A NOVA ONDA MINIMAL WAVE E RETRO WAVE (SELOS, BANDAS) DE ALGUMA FORMA AJUDOU A DAR NOVO “GÁS” A CENA ALTERNATIVA QUE ESTAVA MUITO ESTAGNADA ATÉ A METADE DOS 2000?

Sem dúvida. Essa cena obscura eletrônica (ou dark, ou gótica, ou o que preferir chamar) havia se distanciado daquela experimentação da coldwave / minimal wave dos anos 70 e 80 e caído tardiamente nessa onda industrial / trance que até hoje fazem a cabeça de muita gente. O problema é que depois de alguns anos essa cena “harsh” EBM / Future Pop começou a ficar sem imaginação, repetindo-se em fórmulas já cansadas com artistas que não tinham muito a dizer, salvo raras exceções.

Como eu disse anteriormente, talvez influenciados pelos sons descobertos em lojas de vinis usados ou pelo apelo dos synths analógicos, os jovens hoje olham para os mais diversos estilos (Post-Punk, o revival Electroclash do final dos anos 90, Synthpop) com o intuito de produzir algo que soa retro ou vintage, mas ao mesmo tempo dialoga com essa geração pós-Facebook. As diversas novas bandas e selos são a prova de que essa cena existe e tem valor. E ao contrário da geração 2000 que parecia estar restrita à própria cena, hoje notamos que os novos artistas underground conseguem influenciar mais uma vez o mainstream. O clipe super gótico do MGMT está aí e não me deixa mentir.

Por fim, os novos fãs garantem a continuidade de um tipo de sonoridade e cultura que antes estava fadada à extinção devido ao envelhecimento da cena. É bom ter sangue novo para dar uma sacudida nas coisas.

4 – VEJO QUE VOCÊ TEM TRAZIDO UMA NOVA CARA CENA CARIOCA… UM NOVO AR ESTÉTICO TAMBÉM É MUITO PRESENTE NESTA “ONDA ATUAL” – SEJA NA APRESENTAÇÃO DAS CAPAS DOS DISCOS, O INTERCAMBIO ENTRE SP E RIO NESTE QUESITO TEM DADO BONS FRUTOS. COMENTE SOBRE ISSO.  

Fico feliz em participar dessa renovação e ser reconhecido como um dos fatores de integração nesse momento. Existe toda uma rede de pessoas (festas, bandas, entusiastas) que se mobiliza para essa oxigenação da cena e sou grato por participar dessa balbúrdia (como diriam nossos míopes governantes). É difícil quantificar se nossos esforços produzem resultado ou se ao menos são relevantes, mas correr junto com todo mundo que tenta melhorar o panorama cultural da cidade vale a pena.

Sendo um tanto controlador em relação ao que produzo, eu gosto de participar o máximo possível de todo o processo criativo. No Cubüs ou na Paranoia Musique, as fotos e vídeos utilizados foram criados por mim ou pela minha esposa Suzana (que é parte fundamental em boa parte dessa produção) e algumas tiradas pelo meu irmão. Também utilizo ocasionalmente acervo copyleft quando há necessidade. Contudo, ao nos valer de material alheio, sempre o “remixamos” para deixá-lo mais próximo dessa visão que possuo.

Toda cena tem uma estética, uma forma de se expressar graficamente. Por muito tempo as artes eram voltadas para temas sobrenaturais ou futuristas e hoje retornamos a essa imagética minimalista, com muitas formas geométricas e a quase total ausência de cores. Mesmo sendo referência, eu tento não me limitar somente a esses modelos. Busco inspiração em outras fontes, o imaginário psicodélico ou na fotografia do início do século XX são alguns exemplos, como uma forma de criar algo diferente. Confesso ficar radiante quando alguém elogia as capas ou diz que gostou de algum flyer.

Por último, a dobradinha Rio / São Paulo não poderia ser melhor. Sempre sou muito bem recebido quando toco na terra da garoa e me diverti bastante todas as vezes que toquei por aí. Trazer o 1983 ao Rio e poder utilizar muitas canções feitas pela galera de SP é uma forma bem bacana de diminuirmos os bairrismos e pensarmos essa movimentação cultural não enquanto cidades, mas como país. Espero no futuro poder me conectar de forma mais forte também com outros artistas fora desse nosso eixo Sudeste.

4 – DE ONDE VEM O NOME DA BANDA? COMO VOCÊ AVALIA ESSES QUASE 20 ANOS DE ESTRADA?

O nome da banda surgiu de um brainstorm meu com o João. Queríamos um nome de uma única palavra que não tivesse qualquer significado, algo o qual as pessoas associassem exclusivamente a nós. Assim sendo, jogamos várias ideias na mesa e ficamos com Cubus sugerido pelo João. Posteriormente, descobrimos que cubus é um tipo de operação matemática, o que casou perfeitamente com toda essa coisa da música eletrônica. Em 2014, eu adicionei a trema no último “U” (Cubüs) porque surgiram lá fora vários outros artistas com o mesmo nome (todos ligados também à música eletrônica).

Eu encaro toda essa trajetória como um aprendizado e, ao mesmo tempo, uma necessidade. Hoje eu tenho ciência de que me expressar através das músicas ou criar algum tipo de ruído com o selo não é opcional e sim uma inquietação que não me permite desistir. Falando sobre coisas mais práticas e concretas, sinto que a banda se profissionalizou de alguma forma e consegui algum reconhecimento nos últimos anos (no Brasil e também no exterior), o que me permitiu tocar em locais que nunca havia pisado antes e conhecer pessoas maravilhosas. A melhor parte em ser velho é olhar para trás e reviver as pequenas conquistas acumuladas ao longo do tempo.

7 – VOCÊS USAM BASTANTE AS REDES SOCIAIS? COMO VOCÊS AVALIAM A IMPORTÂNCIA DESSAS FERRAMENTAS?

Qualquer artista surgido nos últimos 15 ou 20 anos sabe que as redes sociais são fundamentais. Para dizer a verdade, mesmo a galera mais velha também sabe disso. Por ser uma banda underground, quase que 100 % da nossa divulgação é online porque o custo é baixo e o alcance é global. Somando-se a isso, a internet permite focar em determinados nichos que serão mais receptivos ao tipo de som que você está produzindo.

O grande desafio é sempre estar atualizado em quais ferramentas utilizar, o que ainda funciona versus o que se tornou obsoleto. Além disso, a nossa mensagem também precisa mudar de tempos em tempos porque os comportamentos nas redes sociais são efêmeros e você pode cair no risco de não conectar mais com o público.

Uma dica que sempre dou para os amigos: anotem os sites ou blogs que noticiaram os músicos que vocês seguem. Muitos deles serão receptivos à sua produção e o ajudarão simplesmente porque querem somar, pessoas legais que irão te ajudar. E nunca esqueça: seja grato! O cara gastou tempo para falar de você? Então também colabore e divulgue o trabalho do cara (ou da moça), compartilhe a matéria, fale bem.

8 – QUAIS AS ESPECTATIVAS PRA DECADANCE?

Confesso que estou bastante ansioso para o Festival!!! Primeiro porque acompanho as postagens da DecaDance desde a primeira edição e sempre me pareceu ser um super evento. DJs, Bandas, Exposição, Performance… só o fato das pessoas lotarem vans para sair de SP e visitar Araras é um grande indício de que algo importante está acontecendo.

Vale ressalta também que será minha primeira apresentação em quase um ano desde que o Karlos Junior (hoje no projeto Quântico Romance) deixou o Cubüs. Depois de dois anos como uma dupla, vou me reinventar para o festival como one man band. Além das músicas presentes na última coletânea, deve rolar também o debut de algumas faixas novas que estarão no próximo álbum. Talvez toque também uma canção que não é executada ao vivo desde 2005…

9 – HOJE EM DIA MUITA BANDA NOVA NÃO LANÇA MAIS SEUS SONS EM FORMATO FÍSICO. VOCÊS ACHAM IMPORTANTE MATERIALIZAR/REGISTRAR O TRABALHO EM FORMATO CD, K7 OU VINIL? HÁ PLANOS PARA MAIS COLETÂNEAS DA PARANOIA?

Eu vivo um conflito quanto ao material físico. Sou voraz consumidor de música enquanto fetiche, um objeto que podemos admirar e possuir, mas ao mesmo tempo sou daquela primeira geração de artistas que se lançaram exclusivamente através dos MP3. Existem compradores e apreciadores dos LPs e cassetes (até dos CDs), mas o público consumidor encolheu e hoje é necessário ter muito cuidado ao produzir material físico sem ter o risco de ficar com ele encalhado e tomar prejuízo.

Contudo, o material físico possui uma importância maior para aqueles fãs que ainda o consomem. Existe uma lógica bem simples: playlists podem ser removidos e você pode perder todos os seus arquivos caso seu HD parta dessa para melhor, mas aquele CD na sua estante sempre estará lá e pode ser revisitado a qualquer momento. Então, tendo isso em consideração, acho importante lançar material físico caso esteja dentro do orçamento.

Sobre as coletâneas da Paranoia Musique certamente elas continuarão. Estou ao pouco mudando o formato e lançado coletâneas mais temáticas (como a de artistas exclusivamente nacionais ou de música eletrônica) e acredito que isso será tendência. Tenho um projeto antigo de lançar um tributo ao Saara Saara, mas ainda não encontrei uma quantidade boa o suficiente de artistas para essa empreitada. Então, caso ame a dupla tanto quanto eu e queira participar, manda um inbox no facebook.

Finalizando, gostaria de agradecer a toda equipe da DecaDance pelo convite pra participar do evento (uma grande honra, sem dúvida) e por essa oportunidade de falar um pouco sobre a minha trajetória. Continuem sendo essas pessoas foda que vocês são.

Nos vemos em julho

LINKS DA BANDA:

Cubüs:

Facebook – https://www.facebook.com/cubusonline/

Bandcamp – https://cubusonline.bandcamp.com/

Instagram – https://www.instagram.com/cubusonline/

Youtube – https://www.youtube.com/channel/UCYSMe3we7og-XTCzBc8WYFg

Twitter – https://twitter.com/cubusonline

Paranoia Musique:

Facebook – https://www.facebook.com/paranoiamusique/

Bandcamp – https://paranoiamusique.bandcamp.com/

Youtube – https://www.youtube.com/channel/UCioItuC8tZPw98KEWu3N9-w/featured?view_as=subscriber

Adendo

Como tem uma galera que segue o blog pelo e-mail, acho que preciso avisar. Devido a um certo nível de ansiedade eu acabo modificando o texto (não muito, pequenos detalhes) mesmo depois de publicado. Faço correções antes de postar, mas quando releio sempre acho que pode ficar melhor…

Então, provavelmente o texto enviado pelo correio eletrônico não será exatamente igual ao visto quando acessamos a página. Fica essa dica.

Processo Criativo

Peter Hook (ex-baixista do New Order), mesmo em pé de guerra com seus antigos parceiros de trabalho, parabenizou a banda pelo seu último lançamento em uma de suas entrevistas. Apesar do clima tenso entre eles, Hook reconheceu o enorme esforço desprendido (independente do resultado) de se gravar um álbum.

Todos que já se debruçaram sobre qualquer empreitada intelectual sabem a dificuldade de ser bem-sucedido na criação de algo significativo, algo esse que você tenha certeza absoluta poder mostrar para o mundo ao invés de trancar e esquecer dentro de uma gaveta. Seja na escrita de um livro ou artigo científico, na composição de canções ou nas artes visuais, o processo criativo demanda esforço e planejamento. Vivo esse dilema nesse exato momento.

Eu adiei por muitas vezes as gravações do segundo álbum do Cubüs. As composições iniciaram há algumas semanas, mas infelizmente o ritmo está mais lento do que o planejado e o prazo final imaginário que circula minha mente não deve ser respeitado. Bem, isso não é inédito se eu for olhar em retrospecto, na verdade diria até que é a regra. De qualquer forma, algumas músicas novas tem boa chance de dar as caras nas apresentações que farei em São Paulo no mês de Julho, mas já começo a me perguntar se conseguirei realizar o lançamento ainda esse ano.

Em tempos de playlists e mixtapes, onde os fãs pinçam apenas as músicas que os agradam mais, gravar um álbum ainda é o ponto alto dos operários dos acordes. A mídia e os fãs ainda reconhecem como o trabalho definitivo, a obra onde o autor tem algo de importante a dizer (ou pelo menos deveria ter). Eu também acredito nisso e me torturo ainda mais ao achar que o álbum deve possuir uma coerência em si, um tema que norteia a obra (mesmo que isso não fique claro aos ouvintes) e se torne um elo entre as músicas.

O primeiro álbum do Cubüs foi gravado (se não estou equivocado) entre junho de 2015 e março de 2016. Naquele período, eu estava imerso no clima soturno e minimalista das novas bandas coldwave europeias e certamente elas foram forte referência. Somado a isso, conflitos no âmbito profissional e um enorme saudosismo da juventude (que estavam me atormentando) foram marcantes para o lado pessimista das músicas. Não acho que o “artista” (detesto referir a mim mesmo dessa forma) deva racionalizar o seu trabalho, é como o comediante explicar a piada, mas por algum motivo eu vejo “Caridade & Sadismo” como uma coletânea de músicas sobre a morte, de forma figurativa e literal.

Foto e Arte: Suzana Martins

Eu preciso admitir não estar sendo totalmente honesto ou, para aliviar um pouco a minha barra, preciso. Pelo que eu já pude observar ao longo dos anos, o processo criativo se desenvolve de duas formas:

A primeira, mais organizada e planejada, talvez um pouco mais mecanizada. Por muito tempo toquei com uma pessoa que possuía muito bem definidos em sua cabeça os resultados que desejava obter antes de sequer ligar o amplificador da guitarra. O Rafael tinha a concepção totalmente delimitada do que queria criar e, principalmente, do que a todo custo ansiava evitar. Toquei durante quatro anos nas “Amigas de Plástico” e encarava a minha participação como uma interferência nesse grande plano, um desvio da rota que deveríamos cumprir. Eu posso estar sendo injusto com ele e talvez nossa “metodologia” não fosse tão diversa, mas creio que a união desses dois conceitos foi muito feliz e funcional por bastante tempo, o que nos permitiu ser diferente entre os diferentes.

As Amigas de Plástico em foto pixelada no Saloon 79 no final de 2013.

O segundo é o que estou mergulhado agora e posso afirmar, com total certeza, ser bem mais abstrato e indireto. Como diriam os gregos, somos levados pelas ninfas que nos inspiram a narrar às histórias perdidas no éter. Existem conceitos vagos que se desdobram conforme o processo avança, sem muitas amarras e que nos guiam para locais às vezes desconhecidos. É evidente a existência de regras e normas respeitadas nos momentos despertos, mas muito se dá no campo do inconsciente, nos momentos de transe da matemática musical. Toda essa firula serve para vocês entenderem que, ao contrário do que escrevi acima, o tal planejamento nem sempre é muito útil no meu caso. As vezes eu me espanto com o resultado ao ponto de questionar-me como cheguei ali.

Pessoalmente, o término de qualquer trabalho sempre é conflitante. Não importa se foram meses gastos num álbum ou minutos para escrever essas linhas, sempre existem as dúvidas surgidas naquele momento posterior de calmaria:

“Isso ficou bom ou estarei passando vergonha? Alguém vai se interessar? Deveria desistir?”

No final das contas, muitas pessoas se interessaram pelo que fiz em 2016. Conheci diversas pessoas legais e apresentei-me em locais desconhecidos por mim devido ao resultado dessa epopeia. Alguns estranhos gastaram seu tempo para redigir algumas linhas sobre minha teia de sentimentos. Foi longo e difícil, mas senti-me recompensado de alguma forma.

Olhando o percurso, vejo claramente todos os defeitos e imperfeições, mas a idade também trouxe um pouco de confiança para acreditar no valor do que foi feito. E não satisfeito eu pretendo atirar-me nesse mar revolto uma segunda vez…desejem-me sorte.

Espero não ter sido muito abstrato.

Brasil Über Alles

Nesses tempos polarizados em que vivemos, toda semana rola uma nova polêmica nas redes sociais. Uma vez na fila do restaurante ouvi um grupo de engravatados afirmar que as eleições (de 2014) haviam quebrado o Facebook. Talvez eles estivessem corretos e a ideia de um diálogo racional não seja mais possível entre certos grupos de pessoas. Bem, seguindo o fluxo das tretas e desentendimentos, por que não começarmos a semana com uma das bandas mais controversas de todas?

A vinda do Dead Kennedys ao país gerou uma onda de comentários. Jello Biafra não estar mais na banda deixa uma parcela considerável dos fãs desconfortável, temerosos com o oportunismo dos outros integrantes.  Nos anos 90, os Sex Pistols souberam capitalizar a questão na sua turnê de retorno, afirmando em forma de chacota: “In it for the Money”.

Muitos têm dificuldades com a partida do vocalista, imaginando que a alma tenha se esvaído. Talvez porque a emoção e o sentimento na música pop sejam mais facilmente percebidos através das letras e na forma como o cantor decide interpretá-las. Concordo em muitos casos… Você consegue imaginar The Cure sem Robert Smith? Smiths sem Morrissey? Legião Urbana sem Renato Russo? Ok, esse último foi feito, mas vocês entenderam, não é?

De qualquer forma, essa questão passaria batida se não fosse por esse cartaz.

Arte por Cristiano Suarez

Como era de se imaginar, em um primeiro momento, o pôster foi viralizado por fãs e desgostosos com nossa configuração política atual. E obviamente, no instante seguinte, uma massa de roqueiros conservadores repudiou o mesmo com aquelas velhas máximas testemunhadas na visita do Roger Waters ao Brasil: “Gosto da música, não ligo para as letras”; “Rock e política não se misturam”; “A esquerda quer lacrar”; blá blá blá.

Temerosos pela repercussão gerada por uma simples imagem, a banda tratou de se desculpar e informar que não tinham conhecimento da arte e não estavam aptos a falar sobre questões políticas de outros países. A desculpa soou estranha aos ouvidos de muitos e, até onde tomei conhecimento, os próprios fizeram uma segunda declaração, agora apoiando o desenho.

O que direi não é nenhuma novidade e já foi exposto por muita gente, mas certas subculturas e nichos no mundo ocidental tem se transformado paulatinamente em redutos do conservadorismo, muitas vezes movidos por misoginia, racismo ou um anticomunismo desvairado. Grupos antes segregados por suas posturas e visões, hoje compactuando com um discurso excludente. Dos que tenho contato mais próximo, Nerds e Headbangers são os que me saltam aos olhos.

O que isso pode significar? Tenho algumas teorias. Alguns desses grupos cresceram e se popularizaram ao ponto de atingir as massas, viraram hegemônicos. Enquanto adolescente nos anos 90, ser chamado de Nerd era um xingamento, um rótulo pouco desejado. Eu não permitia ser chamado dessa forma mesmo pelos meus amigos nerds. Hoje, todo jovem é meio nerd. Avistar pessoas trajadas com camisetas do Star Wars ou dos Vingadores é algo bem normal e os produtos culturais voltados a esse segmento (filmes, jogos, séries) são uma fonte infinita de dinheiro. Quando a coisa cresce dessa maneira, você incorpora todo tipo de opiniões e filosofias.

No caso do Rock, eu já tenho uma visão oposta: o gênero tem encolhido e se transformando em um reduto masculino da meia idade. Os jovens rebeldes que compravam discos e compareciam aos shows hoje são quarentões com um “mindset” bem diferente, dopados por grandes doses de reacionarismo. Roger e Lobão estão aí e não me deixam mentir.

Toda generalização é burra e a que estou fazendo aqui também é. Existe muita gente legal contrária a essa visão tacanha de mundo. O problema não é a postura do Dead Kennedys! Os caras estão nessa batalha por quase quarenta anos e já cumpriram o seu papel. O problema é não darmos destaque a quem carrega essa tocha hoje. O Pussy Riot veio ao Brasil e vi pouquíssimas postagens sobre isso. As garotas lutaram contra o Putin e a Igreja Ortodoxa, foram presas e nem demos muita bola. O feminismo anti-establishment das russas não é equivalente à postura anárquica do hardcore californiano dos anos 80? Ou nos tornamos muitos velhos para aceitar demandas que não são as nossas?

Prussian Blue

Você às vezes tem a impressão de ter entrado numa espiral? O mundo parece estar vivendo um ciclo estranho de notícias que seriam consideradas surreais há poucos anos atrás? O Facebook hoje nada mais é do que uma enxurrada de catástrofes, ora proporcionado por nossos dirigentes, mas também caracterizado por desastres naturais, descaso humano entre tantos outros.

Ontem foi particularmente perturbador: além das desanimadoras e corriqueiras manchetes políticas, presenciamos atônitos o incêndio da Capela de Notre Dame. Um amigo, numa constante indignação mantida desde o resultado de nossas últimas eleições, exclamou estarmos realmente vivendo a Kali Yuga. Para aqueles que desconhecem a mitologia indiana, segue essa breve descrição retirada da página da Wikipédia:

“Escrituras como o Mahabharata e o Bhagavata Purana apresentam Kali Yuga como uma era de crescente degradação humana, cultural, social, ambiental e espiritual, sendo, simbolicamente, referida como Idade das Trevas porque, nela, as pessoas estão tão longe quanto possível de Deus.”

Os adeptos do Hinduísmo diferem sobre o início da mesma, alguns acreditando que já está vigente a milhares de anos enquanto outros creem que estamos prestes a adentrá-la. Não sou um cara religioso e muito menos supersticioso, mas a degradação de nossa sociedade parece algo tangível, inevitável.

É óbvio que nossa percepção do mundo hoje é ditada pela tecnologia. Mark Zuckerberg tem passado maus bocados com o Senado Americano e tornou-se notório que além dos nossos dados, o modo como enxergamos a realidade foi comprometido. Quem são as pessoas que arquitetam o nosso futuro através das redes sociais? Qual o objetivo de nos moldar através dessa teia de Fake News?

Preciso deixar algo bem claro. A ideia do blog não é virar uma página conspiratória e muito menos paranoica, mas algumas questões que hoje circulam no discurso de pessoas importantes me são caras. Então, dessa forma, não consigo me calar diante essa situação.

Em 2009, eu finalmente consegui me formar em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. O meu curso já se prolongava há bastante tempo, tendo me transformado em um daqueles alunos jurássicos que são parte da mobília da Instituição. Um paralelo interessante feito por mim à época era perceber que muitos dos meus amigos já haviam partido, mas eu ainda estava ali, como um homem idoso que se lembra dos seus companheiros falecidos. Cheguei a receber uma notificação de jubilamento, mas por sorte estava com todos os meus créditos concluídos e a monografia pronta, feliz em receber meu canudo muito em breve.

IFCS: minha casa por muitos anos

Certamente um dos motivos da minha demora em concluir o curso foi a indecisão sobre o tema da minha dissertação. Por muitos anos me vi enquanto um estudante na área da antiguidade porque adorava os estudos sobre a Grécia e já possuía alguns professores interessados em orientar-me. Porém, nem sempre nossos planos se realizam e por motivos diversos, apesar de ainda ser apaixonado pelo tema, não desejava mais falar sobre a vida de pessoas que já estavam mortas muito antes do nascimento de Cristo.

Totalmente perdido, cheguei a cursar a cadeira relativa à criação da monografia sem ter nenhum plano, incerto sobre o que me debruçar. Sugeri a professora um tema que, aos meus olhos, parecia inédito: Cinema Expressionista e Nazismo. Para minha surpresa, a mesma alertou-me que todo período alguém queria elaborar sobre essa relação, tendo dezenas de artigos sobre o assunto.

Naquele momento em que você não sabe mais para onde correr, surge uma luz no fim do túnel (mais clichê, impossível). Li sobre uma entrevista dada pelo conjunto “Prussian Blue”, um duo adolescente norte-americano, que gerava ondas de indignação por cantar odes a generais nazistas. Suas letras racistas e revisionistas tomavam de assalto os telejornais estadunidenses. Estava decidido.

Ricardo Castro foi o meu orientador nessa desafiante empreitada e uma excelente ajuda, um farol que mostrava o caminho certo a seguir. Ao contrário da grande maioria dos alunos, eu trabalhava com uma narrativa que não havia sido debatida à exaustão. Obviamente eu utilizei a literatura que trata sobre assuntos correlacionados ao meu objeto (racismo, neonazismo, revisionismo), mas como o grupo era a história em movimento, acontecendo diante dos olhos de todos, tive que criar muita coisa do zero.

No meu curso ginasial, não era incomum deparar-me com a dualidade “Fim do Socialismo” versus “Retorno do Fascismo”. Lembro-me de uma charge onde Nosferatu saía de um caixão entalhado com a palavra “Nazismo”, enquanto a foice e o martelo partiam por uma porta. Esse fantasma assombra desde a segunda metade dos anos 80, mas era difícil prever (ou mesmo imaginar) quando ele se materializaria. Em 2009, eu vi através do Prussian Blue como as coisas estavam começando a se desenrolar.

Pesquisar é nadar em correntezas muitas vezes desconhecidas. Qual o motivo do Prussian Blue ter virado notícia? Não existia música neonazista antes disso? É claro que sim, mas o diferencial era a apresentação. Ao contrário das dezenas (ou mesmo centenas) de grupos de rock raivosos formados por skinheads supremacistas (vale ressaltar que os skinheads em sua maioria não o são) com letras e indumentárias que louvavam Hitler e asseclas, as meninas do PB usavam roupas folclóricas alemãs e entoavam canções pop, provavelmente pensadas para um público mais jovem. A meu ver, os neonazistas americanos mudavam o foco e agora corriam atrás das criancinhas, deixando de lado um pouco os desajustados habitantes da puberdade.

Através de seus álbuns e suas constantes aparições em jornais, as jovens moças do Prussian Blue tentavam reescrever a História: o chamado multiculturalismo era o vilão, condenando a “raça branca” ao desparecimento num mar de miscigenação; ou mesmo através da nova postura da mulher, com posses materiais, uma carreira e sem tempo para ter filhos. Além disso, a relativização da culpa dos nazistas na Segunda Guerra Mundial formava o caldo dessa massa indigesta pensada e vendida pelos supremacistas por trás da carreira das cantoras.

Vale ressaltar que o ocorrido deu-se há dez anos. O grande público e a mídia rechaçou as garotas e seus associados que voltaram a ser apenas um incomodo ruído tolerado em nome da liberdade de expressão. Infelizmente, hoje sou forçado a pensar que o Prussian Blue foi o primeiro passo de uma campanha, um projeto de tornar os ideais dos supremacistas brancos algo mais palatável ao grande público. A música é um dos grandes, talvez o maior, fatores transformadores na vida de um jovem e atraí-los para essa arapuca valendo-se dela sempre foi o plano final.

Passados dez anos, nos encontramos em um mundo onde a Alt Right é uma força expressiva, fora um presidente o qual afirma que devemos perdoar os nazistas pelos seus feitos. Um tempo quando se diz aos quatro ventos que a esquerda é responsável pelo Nazismo e uma suposta luta contra o “marxismo cultural” prende professores que tentam apenas lecionar aos jovens. Repetindo o que foi dito no início: você sente que caiu numa espiral? Sente-se dragado para um lugar escuro sem perspectiva de retorno? A confusão mental e a ignorância assassinaram o bom-senso.

O conhecimento e a arte libertam. O primeiro te prepara para as intempéries, podendo passar o que foi aprendido a outros com o objetivo que eles também se soltem de suas correntes imaginárias. A segunda inspira, nos motivando a seguir pelo caminho correto e apresentando outras formas de olhar, diferentes maneiras de perceber a si mesmo e o mundo. Para cada pessoa preconceituosa oriunda dessa onda obscurantista, pode ter certeza que em oposição também aparecem meninos e meninas munidos de guitarras, pedais de distorção e disposição de bater de frente com o retrocesso, amparados pelo mais sujo punk rock.

Dois pontos merecem destaque: minha monografia chama-se “Prussian Blue: um estudo sobre um conjunto pop adolescente norte-americano neonazista (2001-2007)” e já esteve disponível online. Vou tentar organizar os arquivos e publicá-lo novamente, talvez um e-book ou algo do tipo. Por último, as meninas do Prussian Blue abandonaram a vida artística e também as ideias idiotas que permeavam suas letras. Na última vez que li sobre, trabalhavam como camareiras em um hotel e se diziam muito felizes, principalmente após da descoberta da maconha.

Ponto para a maconha.

Skates & Beats

Não tenho certeza, talvez meu irmão não quisesse ter isso de sua vida exposto, mas ele partiu com a família na última segunda-feira para o exterior. Claro que é fácil compreender os motivos: país desgovernado e entregue à violência das redes criminosas e do Estado, fora a total falta de gestão e intelecto por parte dos nossos eleitos no executivo e legislativo. Todo brasileiro em algum momento da sua vida deve ter deslumbrado a possibilidade de chutar o balde e partir para novas e distantes praias.

A despedida é difícil por ser uma ruptura, o término de algo que fica para trás enquanto você olha para novos horizontes, novas descobertas. Entrar em contato com o diferente, o alienígena é transformador porque entendemos que os pensamentos e decisões não precisam ser aqueles aos quais nos acostumamos por toda uma vida, ditados por costumes regionais ou familiares.

Não faz muito tempo, nossos gostos diferiam muito, contudo um desses “contrastes” fez que nos aproximássemos. Em nossa adolescência, nós tínhamos poucas afinidades: eu sempre fui mais introspectivo dependendo do ambiente que me encontrava (talvez até tímido) e muito ligado a ideias, sons, um cara que talvez fique mais confortável em ambientes fechados. Por sua vez, ele era o oposto, fortemente conectado à ação, mais expansivo e apreciador de espaços ao ar livre. Como o blog é voltado para música, vale ressaltar que nesse campo a distância também era grande.

Boa parte de sua juventude, ou toda ela, o Marcelo foi skatista.  As sonoridades que gravitavam esse universo, ao menos no Rio de Janeiro, causavam-me pavor. Aquele hardcore pop nacional soava-me como ofensa, mas faziam a cabeça de muita gente, principalmente entre os adeptos das pranchas com rodinhas. Nossa conexão nesse momento se baseava em alguns CDs dados de presente por imaginar que seriam mais úteis com ele do que na minha estante (Planet Hemp, Raimundos, Public Enemy).

Dentro da minha família havia uma tradição: sendo nosso avô português, ele levava os netos a Portugal para conhecer suas origens, descobrirmos de onde veio e como vivia esse ramo da família. Eu fui ao país em 1988 (com 10 anos de idade) e meu irmão foi algumas vezes depois disso. Em uma dessas viagens, ele já estava apto a dirigir, conheceu muitos dos points frequentados pelos skatistas lusitanos.

No momento do seu retorno era visível que algo havia mudado, porque trazia consigo uma nova postura. Os portugueses com quem conviveu estavam mais antenados com a modernidade, se desligando dos velhos clichês Skate / Califórnia / Hardcore que talvez ainda estejamos presos por essas bandas. Desde então, tornou-se normal trocar ideias sobre Chemical Brothers, Joy Division ou qualquer outros que habitavam minha coleção de CDs.

Paixões unem pessoas. Literatura, cinema, cuidado com os animais, política ou fé tem o poder de aglutinar um grupo, a força de criar uma ligação onde os indivíduos tem prazer em andar juntas. Isso já aconteceu diversas vezes na minha vida, podem ter certeza.

Desejo sorte a eles e espero que possamos nos reunir em breve.

Amores Líquidos

Nesses testes bobos sobre personalidade no Facebook, enquanto meus amigos sempre saem com aventureiro, desprendido ou algo equivalente, eu constantemente sou taxado de protetor, preservador ou zelador. Já está virando bordão: Deve ser esse meu lado historiador.

Poucos sabem disso, mas eu tenho enorme prazer em catalogar coisas. Quando criança, eu possuía um caderno onde anotava os filmes apresentados na Tela Quente, tecia alguns comentários e dava nota às películas, acompanhados muitas vezes de péssimos desenhos (sou multimídia, jogo nas 11). Cinéfilo na tenra idade, eu consumia uma boa quantidade de revistas (Vídeo News era a minha preferida) e comprava anualmente um guia com os filmes disponíveis em VHS no Brasil (criança estranha, não é?). Mais tarde, essa mania migrou para outras áreas e uma nas que sou mais ativo hoje é dentro do Discogs.

Muito mais conteúdo que a revista SET, eu garanto.

O Discogs surgiu em 2000, criado por Kevin Lewandowski, como um catálogo online para CDs, LPs e K7s de música eletrônica. A ideia é bem simples e herdada de outras wikis: você pega aquele seu CD do “Aqua” que fica escondido quando seus amigos te visitam, preenche um formulário sobre esse lançamento e cria um registro desse produto para que todos possam consultar as informações. Dessa forma, os curiosos ou fãs da banda tem como verificar em que países o trabalho foi lançado, diferenças entre as versões, etc.

Cadastrei-me no site em 2003 e ainda naquela época era voltado apenas para música eletrônica, mas os usuários já forçavam a barra e alimentavam o portal com dados de outros estilos diversos. É evidente que em pouco tempo os proprietários perceberam a necessidade de expandir esse conceito.

Como tenho uma grande coleção, não foi rápido até que a transportasse por completo para o portal. Os grupos de moderadores seguem regras rígidas e exigem que constantemente sejam feitas correções, mantendo dessa maneira a precisão dos dados informados. Contudo, o Discogs hoje tem um significado mais pertinente para mim que vai além dos meus “bens” pessoais. Eu catalogo e espero deixar para a posteridade toda uma cena de amigos ou mesmo desconhecidos que produzem à margem de rádios ou programas de TV. Pessoas que atuam em pequenos lançamentos e apresentam-se em festivais sem patrocínios de grandes marcas e, dessa forma, capturam os corações de um reduzido público cansado das massificações. Acreditem, deixar de lado os hits arquitetados por produtores milionários e cantores sem personalidade faz bem à saúde.

Por que todo esse blá blá blá? Imagino que quase ninguém, mesmo dentre meus amigos, tenha a mínima vontade de ler sobre catálogos. Qual será o próximo passo? Falar sobre manuais de videocassete? Claro que não. O fim do “The Blog that Celebrates Itself” foi o gatilho, a mola sobre essa reflexão. O TBTCI (para os mais chegados) é um colossal esforço do Renato Malizia na tentativa de abrir a cabeça de alguns para o que se produz de novo nesse oceano sonoro. No Brasil vivemos uma mentalidade de que os artistas do passado foram excelentes, mas hoje os novatos são medíocres e não alcançam aquele brilhantismo de Mutantes, Renato Russo ou Secos e Molhados. Com centenas de entrevistas (talvez milhares) e uma infinidade de lançamentos no Bandcamp, Malizia prova por A + B que o problema é outro: existe boa música sim, mas o interesse em divulgá-la ou mesmo vende-la ao grande público parece ter se perdido.

Claro que estou generalizando porque muitas obras de qualidade conquistam enorme sucesso e talvez desmintam tudo o que escrevi. Ou talvez não. Cadastrei no Discogs todos (ou praticamente todos) os álbuns lançados pelo TBTCI: coletâneas, tributos, EPs. Mesmo tendo atingido reconhecimento entre os conhecedores de música, ele afirmou estar cansado e acredita que esse tipo de trabalho tornou-se obsoleto. Zygmunt Bauman popularizou o conceito dos tempos líquidos, onde tudo se move velozmente e nada é permanente. Os amores durariam apenas o tempo da satisfação pessoal, sendo substituídos quando não fossem mais necessários. Estaríamos todos condenados ao esquecimento, sendo automaticamente removidos enquanto fenômeno fugaz? Seria essa a razão do término do TBTCI? Um enorme esforço voltado para uma geração que tem déficit de atenção?

Fico triste com o fim do TBTCI porque acredito no valor do projeto. Em tempos de mixtapes e Spotify, organizar coletâneas em mp3 talvez tenha ficado para trás mesmo, mas a curadoria é preciosa e apreciada. Os algoritmos são poderosos e indicam com precisão o que podemos ouvir em seguida, mas não substituem as dicas inesperadas daqueles debruçados sobre o tema ao longo dos anos. Como dito por um dos fãs do blog, o momento é de reinventar-se.

Primeira participação do Cubüs em uma coletânea

Também tenho minhas ressalvas sobre as opiniões que formamos a cerca dos mais jovens. Vivemos em bolhas e projetamos características muitas vezes irreais em relação às gerações seguintes. O comportamento mudou, mas sempre teremos curiosos apaixonados e sedentos em descobrir algo novo. Por isso esses registros são importantes, são as trilhas que nós idosos preservadores deixamos para os jovens aventureiros. O esforço ainda vale a pena.

Antes de finalizar, preciso destacar: Não tenho CD do “Aqua”, mas já ouvi caso de um conhecido DJ trevoso do Rio de Janeiro que amava cantar Barbie Girl escondido na segurança do seu lar. Todos tem seus guilty pleasures.

Anti-Pop Art

Espero de verdade não transformar o blog num daqueles armários velhos, cheiro de mofo e lotado de peças do passado. Porém, terei que me deparar mais uma vez com tempos antigos porque nesse último sábado comemoramos 15 anos do primeiro lançamento do Cubüs. Então, perdoem-me porque esse é o momento de vender o meu peixe.

Em 2003, visitas ao Junior Flutuante (que infelizmente partiu cedo demais em 2017) eram bem frequentes. Ele trabalhava numa das várias lojas de CDs dentro do Ilha Plaza e sempre batíamos papo no estabelecimento. Como constantemente fazia pedidos de muita música eletrônica e bandas alternativas (ou indie para quem for mais jovem), eu não era o único a possuir esse hábito de encontrá-lo. Nesse mesmo ano, o Junior foi o intermediador para que eu conhecesse o João Pedro. Sob a desculpa de termos algo em comum (musicalmente), a conversa transformou-se rapidamente na ideia de formarmos uma banda.

Desde minha adolescência, quando fiz aulas de teclado, eu ansiava criar música. Fiz algumas tentativas frustradas de gravação dentro do banheiro de casa com meu teclado, somado ao tal Boom Box que citei em um dos posts anteriores e nenhuma experiência ou bom senso. Mas a vontade havia adormecido porque não encontrava parceiros que pudessem acompanhar-me, não ao menos que topassem construir algo da maneira que eu tinha imaginado.

Na época, eu estava aprendendo a usar o FruityLoops (um sequenciador digital que virou febre no meio EDM anos depois) e, por sua vez, o João tinha aquela coisa de poeta e achava ser o Thom Yorke dos trópicos. Lembro que numa fração de segundo eu já era tecladista da banda Mata Hari (que posteriormente homenageamos numa das canções do Cubüs) composta também pelo João como vocalista e letrista (muito melhor na segunda categoria do que na primeira), William Galdino – o baterista que só possuía um prato achado na lixeira, e mais dois integrantes que não me recordo o nome ao certo (o guitarrista se chamava Odilon? A memória foi pras cucuias mesmo).

Desde os primeiros ensaios eu percebi que a coisa não ia andar: os gostos pessoais eram muito distintos, indo do Sisters of Mercy e Depeche Mode, passando por Radiohead, Marylin Manson e Ramones (essas são as influências boas) e descambando em KLB e música pop do Domingão do Faustão (é sério, acreditem). Fora que as condições não eram favoráveis: aquela falta de direção, além do comprometimento bem baixo. Todos sabiam que não ia durar mais que 3 ou 4 ensaios.

O fim de nossa breve empreitada deu-se de uma forma simples, as pessoas apenas deixaram de lado, sem criar alarde sobre o término da nossa relação “profissional”. Preparado para o retorno a minha rotina, o João me fez uma proposta um tanto indecorosa: formar uma dupla eletrônica.

Duo eletrônico é o mais velho clichê do universo dos sintetizadores. Posso citar dezenas de grupos europeus ou americanos que se valeram de um cara (ou garota) nos teclados e outro(a) no microfone. Duvida? Erasure, Pet Shop Boys, Suicide, Soft Cell, Adult, Eurythmics, Blancmange, Red Flag, Cause & Effect, The Knife, Indochine, La Roux, Light Asylum… Acho que deu para entender, não é? Havia chegado o momento, agora o bagulho tinha ficado sério.

João e Diego

Esse final de 2003 / início de 2004 foi bem intenso porque eu precisava administrar trabalho, namoro e um ritmo acelerado de composições. Ensinei o João a utilizar o tal Fruity Loops e além das letras, ele me encaminhava constantemente arquivos e mais arquivos de música eletrônica abstrata, com fortes inspirações Techno ou Trip Hop. Somados aos sabores industriais que eu era afeito então, estava formado o embrião dessa aventura.

Não sei se isso é culpa do meu lado historiador ou se sempre fui compulsivo, mas quando me interesso por um determinado assunto, preciso tornar-me uma enciclopédia sobre a questão. Fui assim com os Transformers e outras animações 80s, da mesma forma busquei muito sobre sintetizadores ou sobre estilo musical X ou Y. Apesar de todo o suporte que os caras tinham das gravadoras, fico maravilhado como se produziu música eletrônica de excelente qualidade nos anos 70 e 80. Os artistas se valiam de instrumentos muitas vezes rudimentares e tiravam mesmo leite de pedra. Porém, no início dos anos 2000, as chamadas DAWs (programas de gravação de áudio digital) estavam longe do avanço que temos hoje e, de certa forma, posso me rogar o orgulho de ser um dos desbravadores dessa era web, das bandas independentes que se propagavam via mp3.

 O Fruity Loops era (e ainda é) uma excelente ferramenta e todas as composições do início da banda eram criadas a partir do “App”, mas já não existia a mesma facilidade na hora de gravarmos vocais ou teclados. Placas de som de boa qualidade eram extremamente caras e nossos recursos poucos, além de desconhecermos todo o processo da gravação. Vivíamos sob a égide do DIY (faça você mesmo) porque simplesmente não havia alternativa. Nossa primeira e única visita a um estúdio se deu com a ajuda do Bráulio Jorge que abriu as portas do seu local de trabalho por poucos trocados e um jogo de computador. Em retrospecto, tudo na banda era bem amador, mas tentávamos agir como profissionais. Depois de muito sufoco, gravamos vocais e teclados de duas músicas: “Adore” (a primeira música que escrevi na vida) e “O Construtor” que tomava emprestado um “riff” criado na minha breve participação no Mata Hari.

Em pouco tempo, compomos mais algumas tracks instrumentais, fiz alguns remixes e no dia 30 de março de 2004 lançamos no finado e saudoso site Fiberonline o EP “Anti-Pop Art”. Nosso pequeno e estranho filho foi o debut no titânico mundo da indústria musical. Naquele tempo, atrair a atenção de um público sedento por música gratuita era um pouco mais fácil. Além dos já habituais P2P (Napster, Emule, Kazaa e o meu favorito: Audio Galaxy), existiam algumas opções de download legal (no sentido jurídico). Nesse caso, eram plataformas onde os artistas independentes podiam hospedar seus mp3 e rezar para cair no gosto de alguém. Uma das mais conhecidas no Brasil foi a Trama Virtual (“descobridores” do Cansei de Ser Sexy), mas decidimos inicialmente por um especializado na nossa área de atuação.

Hoje eu considero esse nosso trabalho inicial bem amador e imperfeito, mas ao mesmo tempo acredito que as faixas portavam seu valor, mesmo prejudicadas por uma produção (ou falta de) pouco profissional. Contudo, mesmo assim, muita gente baixou o trabalho. O Fiberonline comportava uma imensidão de artistas muito competentes, e ainda assim escreveram sobre nós. Conseguimos figurar no Top 10 do site algumas vezes e parecia estarmos prontos para o próximo passo. Um Show.

Três pessoas foram muito importantes para nossa primeira apresentação em dezembro de 2004:

Raf Guimarães – amigo das noite góticas que articulou para que conhecêssemos:

Maurício Gouveia – dono do sebo “Baratos da Ribeiro” e promotor cultural underground.

Karlos Junior – líder de outra banda do estilo (Technofactor), também residente da Ilha do Governador e companheiro de palco nesses primeiros passos.

Sobre a primeira apresentação da banda, eu poderia escrever um livro contando todas as surreais histórias ocorridas naquela noite, mas vou limitar-me a copiar e colar um texto de poucas palavras de quando o citado Mauricio postou essa foto no Facebook:

Baratos da Ribeiro (Copacabana) // 18 Dezembro 2004

“Nessa época eu ainda usava o meu primeiro teclado (um Roland E-12) que me acompanhava desde os 15, 16 anos.

Algumas das músicas mais “electro” da banda atraíram os frequentadores do Bar ao lado porque eles acharam que lembrava o funk carioca (talvez um disco punk funk, quem sabe?). Reza a lenda que eles nunca haviam entrado na livraria.

Algumas pessoas legais que conheci depois estavam nesse dia e lembram-se do show até hoje. Uma delas, um quadrinista famoso no meio indie (pai da menina infinito) diz que um dia fará uma HQ sobre essas apresentações.

Momento Twin Peaks: um senhor sem braço com gorro do Papai Noel era um dos mais animados e gritava “rock & roll” constantemente (mas não usávamos guitarras)”.

Nosso início feliz se ruiria em alguns poucos meses. A terceira apresentação ao vivo, junto com o mesmo Technofactor e participação da Orquestra Ektoplasma (banda do Servio Tulio do Saara Saara), gerou um fruto doce, porém maldito. Fui contatado por um jornalista do Jornal do Brasil ansioso em entender essa nova onda eletrônica que acontecia no Rio de Janeiro. Quase ao mesmo tempo, recebemos convite do Gonçalo Vinha para participar de uma coletânea de Electro da MTV (isso mesmo, MTV). Juro, eu acreditei mesmo que me tornaria um astro aos 25 anos de idade.

Como o prazo de entrega era bem curto (uma semana), mandamos “Mata Hari” que fazia parte do nosso primeiro EP com o objetivo de figurar nesse lançamento. O Gonçalo gostou da música, mas queria algo com vocal. Aquela coisa de musica instrumental eletrônica estava morta e a MTV apostava nas novas direções, com vocais e estrutura de música Pop. Ao invés de encaminharmos Adore, decidimos gravar uma faixa nova que o João estava compondo. Fomos auxiliados pelo Claudio Borges (portador de pitacos certeiros) e guitarra e produção do Raf Guimarães (incorporado ao grupo depois do nosso terceiro show) para gravarmos a derradeira música do João: “(Não Há) Nada Que Me Faça Voltar”.

Imagina compor e gravar uma música em uma semana? Imaginem as cobranças de construir quase do zero uma canção boa o suficiente pra ser lançado em CD de uma grande gravadora? Finalizamos faltando um dia para encerrar o prazo de entrega e enviamos, para termos apenas um agradecimento e uma resposta negativa. Nem culpo o Gonçalo, NHNQMFV fugia totalmente do que ele pedia. Enviamos um arquivo impregnado da música escura e esfumaçada, irmã mais nova do Portishead e do Massive Attack, sendo que o objetivo era algo mais voltado ao hedonismo kitsch da Miss Kittin ou Felix Da Housecat. Por sua vez, o repórter do JB nunca mais entrou em contato e estavam findados meus planos de dominação global.

Em pouco tempo, João anunciou sua saída. Estava desmotivado com as cobranças, pelo fim do nosso ritmo de trabalho descontraído e divertido. Uma pena porque “(Não Há) Nada Que Me Faça Voltar” foi um dos seus melhores trabalhos: Escreveu grande parte da música, grafou uma de suas melhores letras e finalmente estava sentindo-se a vontade com os vocais. Suzana afirmou ser a primeira vez em que havíamos feito música de verdade (vindo de uma pessoa bem crítica, encaro como elogio). A saída do João foi o prefácio do fim do Cubüs.

A banda retornaria mais tarde em 2008, mas isso é papo para outra história. De qualquer forma, “(Não Há) Nada Que me Faça Voltar” e “Adore (1.5 Remix)” estão na coletânea dos 15 anos da banda e são exemplos de toda essa narrativa relatada aqui. Ouçam e tirem suas próprias conclusões.

Por Todos Esses Anos (2004-2019)

Coca + Ingresso

“A cada dia o futuro parece mais sombrio. Mas o passado, mesmo as piores partes vai ficando cada vez mais brilhante.”

– Alan Moore, Watchmen

Citação pessimista e em total acordo com os tempos que vivemos, mas não é minha intenção falar sobre assuntos lúgubres, estupidez ou patifaria. De certa forma, sempre achei interessante observar o quanto as pessoas se prendem a juventude, tendo nela suas melhores recordações de um período mágico o qual jamais se repetirá… “Que tempo bom que não volta nunca mais!” cantariam Thaide e DJ Hum.

Por que isso acontece? Meu palpite: você só pode descobrir as coisas uma primeira vez. Depois disso, elas se tornam hábito ou rotina e mesmo quando raras, já não são inéditas. Conhecer é maravilhar-se.

Peguei-me mais uma vez pensando sobre isso nesse último sábado. Fui convidado para discotecar na festa Bauhaus ao lado dos amigos Claudio Borges (que está virando “habitué” nas citações do blog) e do grande desenhista / DJ Renato Lima. Tenho por costume chegar cedo quando participo desses eventos (muitas vezes até antes dos funcionários da casa) porque sei os imprevistos que ocorrem e dar as caras no último minuto não ajuda nem um pouco. Em tempos de vacas magras e enorme recessão, as cabeças pensantes da Bauhaus adotaram uma tática realmente inteligente: os primeiros 66 festeiros que chegaram ao After Bar foram liberados do pagamento da entrada, ingresso 0800. Isso garante uma pista lotada e ao mesmo tempo obriga o mal acostumado público carioca a chegar cedo. Um famoso DJ e radialista confidenciou-me que toda festa de sucesso tem 1/3 de Vips, convidados chamados para animar os pagantes. Verdade ou lenda? Não tenho como dizer.

Digressões a parte, ao chegar a Botafogo, deparei-me com dois frequentadores sentados em frente ao After Bar. Descendo do Uber, brinquei com eles e mencionei estarem mais adiantados do que os próprios DJs (típica piada de tiozão). No decorrer da noite, esse mesmo casal (ou amigos, não sei) era o que mais se esbaldava, dançavam freneticamente todas as músicas e o rapaz veio me cumprimentar inúmeras vezes por alguma canção dos Smiths que eu havia soltado. Sensação de missão cumprida define meu estado de espírito.

Diego, Claudio e Renato – Festa Bauhaus (23 Março 2019) // Foto: Laura Tardin

Janeiro último foi o marco dos 21 anos de minha sociedade no crime com a Suzana. Na verdade, vivi mais tempo ao seu lado do que sozinho e isso só pode ser resultado de nossa cumplicidade, aquela sincronicidade de ideias, gostos e atitudes que colam as pessoas por toda uma vida. O velho clichê de filmes adolescentes se repetia: dois jovens se encontram, descobrem ter mais em comum do que imaginam e firmam um contrato que apostamos perdurar mesmo após o desenrolar dos créditos.

Obviamente que possuíamos a mesma paixão e entrega dos dois jovens desse último sábado, mas demoramos um pouco até encontrar nosso lugar no mundo. Enquanto moradores da Ilha do Governador, as festas do bairro pouco ou nada nos ofereciam. Era um verdadeiro deleite ouvir um “Smack my Bitch Up” ou “The Rockafeller Skank” dentro do finado boliche no Ilha Plaza ou em alguma festinha do Lemos Cunha. Houve boas tentativas no bairro, mas as festas do arquipélago não eram (ou nunca foram) para gente.

Contudo, um novo mundo se abriu quando decidimos encarar a travessia noturna da Linha Vermelha e nos reunir com os moderninhos frequentadores das baladas (dialeto paulistano incorporado ao jargão carioca) da Zona Sul. Suzana ainda menor de idade foi fonte de preocupação muitas vezes na entrada de boates ou shows. Em nossa primeira vez na Bunker, ao descobrirmos ainda na fila que pediam as identidades na porta, ela foi ninja e sagaz em falsificar a data de nascimento com o lápis de olho e o segurança, que achou até engraçado, nos permitiu entrar. Ao contrário dos frequentadores mais velhos ou mais endinheirados, nossos recursos nos permitiam bem pouco. Transporte, o valor da entrada e uma coca-cola para cada. Um casal que consegue administrar duas bebidas ao longo da noite não precisa de nenhum cursinho bobo de Planejamento Estratégico, isso eu te garanto.

O Rio de Janeiro do final dos anos 90 certamente não é o mesmo de hoje. A integração dos bairros na cidade era ainda mais precária e provavelmente mais perigosa. Nossa rotina aos finais de semana envolvia dois ônibus para chegar ao local do evento, dançar até 5 ou 6 da manhã para, aí sim, retornarmos em segurança. Mas sabíamos ser um caminho de mão única, porque após assistir ao show do Kalte Stern nos 15 anos do Crepúsculo de Cubatão, encarar pistas lotadas no minúsculo Anexo do Barman Club (ex-inferninho transformado em boate de Copacabana) ou dançar a dobradinha Siouxsie / The Cult que o DJ Claudio (o mesmo da foto acima) nos brindava na extinta Interdance transformavam todas essas dificuldades em apenas pequenos efeitos colaterais.

Como todo nostálgico, eu também recordo desses flashes com ternura. Poder deslocar-me de carro e beber o quanto eu quiser não ofuscam essa aurora de nossa relação, relação essa entre nós dois ou com os amigos que fizemos no caminho. Vale ressaltar que não sou rancoroso: a vida aos 40 proporciona também seus momentos mágicos, porém diferentes daqueles de então.

Às vezes me pergunto se daqui a 20 anos esse jovem casal também se lembrará dessa festa no After Bar.

Fitas K7 (Errata + Complemento)

Errata:

Conforme eu havia dito, memória é coisa liquida mesmo. Quando afirmei que minha mãe havia me comprado um double deck, eu estava totalmente equivocado. O primeiro rádio que ganhamos foi esse Sony abaixo que, como podem perceber, só tinha entrada para uma única fita.

Sony CFS-1000

Complemento:

Fui com o Claudio Borges ontem na Audio Rebel para os shows do Rakta e Deaf Kids (que por si só já valem muitas linhas) e ele lembrou bem que a fita cassete foi acusada no período pela própria industria da música como um dos propulsores da pirataria, tendo sua comercialização no Brasil interrompida por causa disso.

Contudo, hoje o acesso a música é tão fácil que possibilitou as fitinhas ficarem de boas de novo.

Tudo culpa do Dead Kennedys