Coca + Ingresso

“A cada dia o futuro parece mais sombrio. Mas o passado, mesmo as piores partes vai ficando cada vez mais brilhante.”

– Alan Moore, Watchmen

Citação pessimista e em total acordo com os tempos que vivemos, mas não é minha intenção falar sobre assuntos lúgubres, estupidez ou patifaria. De certa forma, sempre achei interessante observar o quanto as pessoas se prendem a juventude, tendo nela suas melhores recordações de um período mágico o qual jamais se repetirá… “Que tempo bom que não volta nunca mais!” cantariam Thaide e DJ Hum.

Por que isso acontece? Meu palpite: você só pode descobrir as coisas uma primeira vez. Depois disso, elas se tornam hábito ou rotina e mesmo quando raras, já não são inéditas. Conhecer é maravilhar-se.

Peguei-me mais uma vez pensando sobre isso nesse último sábado. Fui convidado para discotecar na festa Bauhaus ao lado dos amigos Claudio Borges (que está virando “habitué” nas citações do blog) e do grande desenhista / DJ Renato Lima. Tenho por costume chegar cedo quando participo desses eventos (muitas vezes até antes dos funcionários da casa) porque sei os imprevistos que ocorrem e dar as caras no último minuto não ajuda nem um pouco. Em tempos de vacas magras e enorme recessão, as cabeças pensantes da Bauhaus adotaram uma tática realmente inteligente: os primeiros 66 festeiros que chegaram ao After Bar foram liberados do pagamento da entrada, ingresso 0800. Isso garante uma pista lotada e ao mesmo tempo obriga o mal acostumado público carioca a chegar cedo. Um famoso DJ e radialista confidenciou-me que toda festa de sucesso tem 1/3 de Vips, convidados chamados para animar os pagantes. Verdade ou lenda? Não tenho como dizer.

Digressões a parte, ao chegar a Botafogo, deparei-me com dois frequentadores sentados em frente ao After Bar. Descendo do Uber, brinquei com eles e mencionei estarem mais adiantados do que os próprios DJs (típica piada de tiozão). No decorrer da noite, esse mesmo casal (ou amigos, não sei) era o que mais se esbaldava, dançavam freneticamente todas as músicas e o rapaz veio me cumprimentar inúmeras vezes por alguma canção dos Smiths que eu havia soltado. Sensação de missão cumprida define meu estado de espírito.

Diego, Claudio e Renato – Festa Bauhaus (23 Março 2019) // Foto: Laura Tardin

Janeiro último foi o marco dos 21 anos de minha sociedade no crime com a Suzana. Na verdade, vivi mais tempo ao seu lado do que sozinho e isso só pode ser resultado de nossa cumplicidade, aquela sincronicidade de ideias, gostos e atitudes que colam as pessoas por toda uma vida. O velho clichê de filmes adolescentes se repetia: dois jovens se encontram, descobrem ter mais em comum do que imaginam e firmam um contrato que apostamos perdurar mesmo após o desenrolar dos créditos.

Obviamente que possuíamos a mesma paixão e entrega dos dois jovens desse último sábado, mas demoramos um pouco até encontrar nosso lugar no mundo. Enquanto moradores da Ilha do Governador, as festas do bairro pouco ou nada nos ofereciam. Era um verdadeiro deleite ouvir um “Smack my Bitch Up” ou “The Rockafeller Skank” dentro do finado boliche no Ilha Plaza ou em alguma festinha do Lemos Cunha. Houve boas tentativas no bairro, mas as festas do arquipélago não eram (ou nunca foram) para gente.

Contudo, um novo mundo se abriu quando decidimos encarar a travessia noturna da Linha Vermelha e nos reunir com os moderninhos frequentadores das baladas (dialeto paulistano incorporado ao jargão carioca) da Zona Sul. Suzana ainda menor de idade foi fonte de preocupação muitas vezes na entrada de boates ou shows. Em nossa primeira vez na Bunker, ao descobrirmos ainda na fila que pediam as identidades na porta, ela foi ninja e sagaz em falsificar a data de nascimento com o lápis de olho e o segurança, que achou até engraçado, nos permitiu entrar. Ao contrário dos frequentadores mais velhos ou mais endinheirados, nossos recursos nos permitiam bem pouco. Transporte, o valor da entrada e uma coca-cola para cada. Um casal que consegue administrar duas bebidas ao longo da noite não precisa de nenhum cursinho bobo de Planejamento Estratégico, isso eu te garanto.

O Rio de Janeiro do final dos anos 90 certamente não é o mesmo de hoje. A integração dos bairros na cidade era ainda mais precária e provavelmente mais perigosa. Nossa rotina aos finais de semana envolvia dois ônibus para chegar ao local do evento, dançar até 5 ou 6 da manhã para, aí sim, retornarmos em segurança. Mas sabíamos ser um caminho de mão única, porque após assistir ao show do Kalte Stern nos 15 anos do Crepúsculo de Cubatão, encarar pistas lotadas no minúsculo Anexo do Barman Club (ex-inferninho transformado em boate de Copacabana) ou dançar a dobradinha Siouxsie / The Cult que o DJ Claudio (o mesmo da foto acima) nos brindava na extinta Interdance transformavam todas essas dificuldades em apenas pequenos efeitos colaterais.

Como todo nostálgico, eu também recordo desses flashes com ternura. Poder deslocar-me de carro e beber o quanto eu quiser não ofuscam essa aurora de nossa relação, relação essa entre nós dois ou com os amigos que fizemos no caminho. Vale ressaltar que não sou rancoroso: a vida aos 40 proporciona também seus momentos mágicos, porém diferentes daqueles de então.

Às vezes me pergunto se daqui a 20 anos esse jovem casal também se lembrará dessa festa no After Bar.