Processo Criativo

Peter Hook (ex-baixista do New Order), mesmo em pé de guerra com seus antigos parceiros de trabalho, parabenizou a banda pelo seu último lançamento em uma de suas entrevistas. Apesar do clima tenso entre eles, Hook reconheceu o enorme esforço desprendido (independente do resultado) de se gravar um álbum.

Todos que já se debruçaram sobre qualquer empreitada intelectual sabem a dificuldade de ser bem-sucedido na criação de algo significativo, algo esse que você tenha certeza absoluta poder mostrar para o mundo ao invés de trancar e esquecer dentro de uma gaveta. Seja na escrita de um livro ou artigo científico, na composição de canções ou nas artes visuais, o processo criativo demanda esforço e planejamento. Vivo esse dilema nesse exato momento.

Eu adiei por muitas vezes as gravações do segundo álbum do Cubüs. As composições iniciaram há algumas semanas, mas infelizmente o ritmo está mais lento do que o planejado e o prazo final imaginário que circula minha mente não deve ser respeitado. Bem, isso não é inédito se eu for olhar em retrospecto, na verdade diria até que é a regra. De qualquer forma, algumas músicas novas tem boa chance de dar as caras nas apresentações que farei em São Paulo no mês de Julho, mas já começo a me perguntar se conseguirei realizar o lançamento ainda esse ano.

Em tempos de playlists e mixtapes, onde os fãs pinçam apenas as músicas que os agradam mais, gravar um álbum ainda é o ponto alto dos operários dos acordes. A mídia e os fãs ainda reconhecem como o trabalho definitivo, a obra onde o autor tem algo de importante a dizer (ou pelo menos deveria ter). Eu também acredito nisso e me torturo ainda mais ao achar que o álbum deve possuir uma coerência em si, um tema que norteia a obra (mesmo que isso não fique claro aos ouvintes) e se torne um elo entre as músicas.

O primeiro álbum do Cubüs foi gravado (se não estou equivocado) entre junho de 2015 e março de 2016. Naquele período, eu estava imerso no clima soturno e minimalista das novas bandas coldwave europeias e certamente elas foram forte referência. Somado a isso, conflitos no âmbito profissional e um enorme saudosismo da juventude (que estavam me atormentando) foram marcantes para o lado pessimista das músicas. Não acho que o “artista” (detesto referir a mim mesmo dessa forma) deva racionalizar o seu trabalho, é como o comediante explicar a piada, mas por algum motivo eu vejo “Caridade & Sadismo” como uma coletânea de músicas sobre a morte, de forma figurativa e literal.

Foto e Arte: Suzana Martins

Eu preciso admitir não estar sendo totalmente honesto ou, para aliviar um pouco a minha barra, preciso. Pelo que eu já pude observar ao longo dos anos, o processo criativo se desenvolve de duas formas:

A primeira, mais organizada e planejada, talvez um pouco mais mecanizada. Por muito tempo toquei com uma pessoa que possuía muito bem definidos em sua cabeça os resultados que desejava obter antes de sequer ligar o amplificador da guitarra. O Rafael tinha a concepção totalmente delimitada do que queria criar e, principalmente, do que a todo custo ansiava evitar. Toquei durante quatro anos nas “Amigas de Plástico” e encarava a minha participação como uma interferência nesse grande plano, um desvio da rota que deveríamos cumprir. Eu posso estar sendo injusto com ele e talvez nossa “metodologia” não fosse tão diversa, mas creio que a união desses dois conceitos foi muito feliz e funcional por bastante tempo, o que nos permitiu ser diferente entre os diferentes.

As Amigas de Plástico em foto pixelada no Saloon 79 no final de 2013.

O segundo é o que estou mergulhado agora e posso afirmar, com total certeza, ser bem mais abstrato e indireto. Como diriam os gregos, somos levados pelas ninfas que nos inspiram a narrar às histórias perdidas no éter. Existem conceitos vagos que se desdobram conforme o processo avança, sem muitas amarras e que nos guiam para locais às vezes desconhecidos. É evidente a existência de regras e normas respeitadas nos momentos despertos, mas muito se dá no campo do inconsciente, nos momentos de transe da matemática musical. Toda essa firula serve para vocês entenderem que, ao contrário do que escrevi acima, o tal planejamento nem sempre é muito útil no meu caso. As vezes eu me espanto com o resultado ao ponto de questionar-me como cheguei ali.

Pessoalmente, o término de qualquer trabalho sempre é conflitante. Não importa se foram meses gastos num álbum ou minutos para escrever essas linhas, sempre existem as dúvidas surgidas naquele momento posterior de calmaria:

“Isso ficou bom ou estarei passando vergonha? Alguém vai se interessar? Deveria desistir?”

No final das contas, muitas pessoas se interessaram pelo que fiz em 2016. Conheci diversas pessoas legais e apresentei-me em locais desconhecidos por mim devido ao resultado dessa epopeia. Alguns estranhos gastaram seu tempo para redigir algumas linhas sobre minha teia de sentimentos. Foi longo e difícil, mas senti-me recompensado de alguma forma.

Olhando o percurso, vejo claramente todos os defeitos e imperfeições, mas a idade também trouxe um pouco de confiança para acreditar no valor do que foi feito. E não satisfeito eu pretendo atirar-me nesse mar revolto uma segunda vez…desejem-me sorte.

Espero não ter sido muito abstrato.