Amores Líquidos

Nesses testes bobos sobre personalidade no Facebook, enquanto meus amigos sempre saem com aventureiro, desprendido ou algo equivalente, eu constantemente sou taxado de protetor, preservador ou zelador. Já está virando bordão: Deve ser esse meu lado historiador.

Poucos sabem disso, mas eu tenho enorme prazer em catalogar coisas. Quando criança, eu possuía um caderno onde anotava os filmes apresentados na Tela Quente, tecia alguns comentários e dava nota às películas, acompanhados muitas vezes de péssimos desenhos (sou multimídia, jogo nas 11). Cinéfilo na tenra idade, eu consumia uma boa quantidade de revistas (Vídeo News era a minha preferida) e comprava anualmente um guia com os filmes disponíveis em VHS no Brasil (criança estranha, não é?). Mais tarde, essa mania migrou para outras áreas e uma nas que sou mais ativo hoje é dentro do Discogs.

Muito mais conteúdo que a revista SET, eu garanto.

O Discogs surgiu em 2000, criado por Kevin Lewandowski, como um catálogo online para CDs, LPs e K7s de música eletrônica. A ideia é bem simples e herdada de outras wikis: você pega aquele seu CD do “Aqua” que fica escondido quando seus amigos te visitam, preenche um formulário sobre esse lançamento e cria um registro desse produto para que todos possam consultar as informações. Dessa forma, os curiosos ou fãs da banda tem como verificar em que países o trabalho foi lançado, diferenças entre as versões, etc.

Cadastrei-me no site em 2003 e ainda naquela época era voltado apenas para música eletrônica, mas os usuários já forçavam a barra e alimentavam o portal com dados de outros estilos diversos. É evidente que em pouco tempo os proprietários perceberam a necessidade de expandir esse conceito.

Como tenho uma grande coleção, não foi rápido até que a transportasse por completo para o portal. Os grupos de moderadores seguem regras rígidas e exigem que constantemente sejam feitas correções, mantendo dessa maneira a precisão dos dados informados. Contudo, o Discogs hoje tem um significado mais pertinente para mim que vai além dos meus “bens” pessoais. Eu catalogo e espero deixar para a posteridade toda uma cena de amigos ou mesmo desconhecidos que produzem à margem de rádios ou programas de TV. Pessoas que atuam em pequenos lançamentos e apresentam-se em festivais sem patrocínios de grandes marcas e, dessa forma, capturam os corações de um reduzido público cansado das massificações. Acreditem, deixar de lado os hits arquitetados por produtores milionários e cantores sem personalidade faz bem à saúde.

Por que todo esse blá blá blá? Imagino que quase ninguém, mesmo dentre meus amigos, tenha a mínima vontade de ler sobre catálogos. Qual será o próximo passo? Falar sobre manuais de videocassete? Claro que não. O fim do “The Blog that Celebrates Itself” foi o gatilho, a mola sobre essa reflexão. O TBTCI (para os mais chegados) é um colossal esforço do Renato Malizia na tentativa de abrir a cabeça de alguns para o que se produz de novo nesse oceano sonoro. No Brasil vivemos uma mentalidade de que os artistas do passado foram excelentes, mas hoje os novatos são medíocres e não alcançam aquele brilhantismo de Mutantes, Renato Russo ou Secos e Molhados. Com centenas de entrevistas (talvez milhares) e uma infinidade de lançamentos no Bandcamp, Malizia prova por A + B que o problema é outro: existe boa música sim, mas o interesse em divulgá-la ou mesmo vende-la ao grande público parece ter se perdido.

Claro que estou generalizando porque muitas obras de qualidade conquistam enorme sucesso e talvez desmintam tudo o que escrevi. Ou talvez não. Cadastrei no Discogs todos (ou praticamente todos) os álbuns lançados pelo TBTCI: coletâneas, tributos, EPs. Mesmo tendo atingido reconhecimento entre os conhecedores de música, ele afirmou estar cansado e acredita que esse tipo de trabalho tornou-se obsoleto. Zygmunt Bauman popularizou o conceito dos tempos líquidos, onde tudo se move velozmente e nada é permanente. Os amores durariam apenas o tempo da satisfação pessoal, sendo substituídos quando não fossem mais necessários. Estaríamos todos condenados ao esquecimento, sendo automaticamente removidos enquanto fenômeno fugaz? Seria essa a razão do término do TBTCI? Um enorme esforço voltado para uma geração que tem déficit de atenção?

Fico triste com o fim do TBTCI porque acredito no valor do projeto. Em tempos de mixtapes e Spotify, organizar coletâneas em mp3 talvez tenha ficado para trás mesmo, mas a curadoria é preciosa e apreciada. Os algoritmos são poderosos e indicam com precisão o que podemos ouvir em seguida, mas não substituem as dicas inesperadas daqueles debruçados sobre o tema ao longo dos anos. Como dito por um dos fãs do blog, o momento é de reinventar-se.

Primeira participação do Cubüs em uma coletânea

Também tenho minhas ressalvas sobre as opiniões que formamos a cerca dos mais jovens. Vivemos em bolhas e projetamos características muitas vezes irreais em relação às gerações seguintes. O comportamento mudou, mas sempre teremos curiosos apaixonados e sedentos em descobrir algo novo. Por isso esses registros são importantes, são as trilhas que nós idosos preservadores deixamos para os jovens aventureiros. O esforço ainda vale a pena.

Antes de finalizar, preciso destacar: Não tenho CD do “Aqua”, mas já ouvi caso de um conhecido DJ trevoso do Rio de Janeiro que amava cantar Barbie Girl escondido na segurança do seu lar. Todos tem seus guilty pleasures.